_Apropriação cultural na moda_ __ _Domenico de Masi, sociólogo italiano, já há um tempo vem defendido a possibilidade da emergência de pequenas revoluções em virtude da dinâmica de trabalho industrial e exploração econômica dos mais pobres. Basicamente apontando que se esquentar-se demais o fogo, o caldo ferve. Muitos tomam isso por bobagem, mas já há algum tempo é possível perceber a insurgência de movimentos opositores à forma como se faz negócios no mundo de hoje, especialmente no mercado da moda._ __ _O Governo do México dá a sua segunda prova de oposição à forma como a sua riqueza, material e imaterial é explorada nesse “manicômio” do de Masi. É a segunda vez que órgão oficiais da administração mexicana entram em uma batalha judicial pelo uso - sem qualquer compensação financeira aos artesãos ou à população - da arte, cultura e identidade do país para integrar artigos de luxo, vendidos em grifes como exóticos por uma soma considerável. _ __ _Recentemente, a grife de luxo Louis Vuitton incluiu no seu catálogo, cadeiras de design moderno, cuja estamparia é composta pelo uso de elementos étnicos da arte mexicana, mais especificamente de seu artesanato cultural. A primeira vez que o Governo comprou briga com as grandes grifes, foi Carolina Herrera se utilizando de obras da pintora Frida Khalo sem autorização ou compensação monetária. Dessa vez, o Estado alega a apropriação cultural de sua arte identitária, sendo a população como um todo que teve seu patrimônio cultural coletivo afetado._ __ _Não é a primeira vez que vemos mostras claras de apropriação cultural na indústria da moda, senda cada nova tendência o resgate ou “reinterpretação” de alguma referência cultural humana considerada exótica ao ocidente. Mas é uma das primeiras vezes que vemos atitudes opositoras serem efetivamente tomadas a respeito da situação. Parece estarmos chegando no momento em que a temperatura do caldo está consideravelmente alta, e o ponto de fervura fica logo ali._ __ _Era de se esperar que uma marca como a Louis Vuitton, que vende cada uma de suas poltronas pela “bagatela” de US$ 18 mil, fosse capaz de quitar remunerar de forma justa todos os artistas envolvidos no processo criativo do produto, não apenas aqueles muito bem remunerados na folha de pagamento da marca. Já falamos sobre o valor humano na alta costura, e como há um descompasso entre o deles e o do restante dos trabalhadores da indústria fashion. E circunstâncias como esta só evidenciam ainda mais como o trabalho tem valor diferente para cada pessoa, e essa diferenciação é mais uma lenha na fogueira do caldo que já está alarmantemente quente._
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