*Comentários sobre o artigo "O joio e o trigo no agronegócio brasileiro"* Marina Silva e João Paulo Capobianco publicaram um artigo na sexta-feira que não pode passar desapercebido: falando de Brasil, o agronegócio está no centro da crise ambiental, mas essa relação destrutiva não é assim imperativa. Cresce por aí uma correlação cataclísmica que coloca o agro e o meio ambiente como inconciliáveis. Na verdade, parte do agronegócio brasileiro pode ter soluções para a preservação ambiental, e o insight está nos ganhos de produtividade. A agropecuária brasileira tem o maior crescimento de produtividade do setor no mundo há décadas, numa média de 3,43% ao ano nos últimos quarenta - contra a média de 1,38% da norte-americana. Nos anos 2000 a taxa média do crescimento de produtividade do setor foi de 4,08% ao ano. Do crescimento da produção agrícola brasileira, 90% é respondido pelo crescimento da produtividade, segundo o Ministério da Agricultura, ao passo que só 10% é representado pelo aumento de insumos. Ganhos de produtividade significam maior produto por mesma unidade de insumo. No campo, isso pode significar menos terra necessária para produzir a mesma quantidade de produto - o que já acontece na produção de grãos mas não na pecuária extensiva, dois setores que Marina e Capobianco diferenciam no artigo. Enquanto o primeiro setor se beneficia do conhecimento sobre sistemas de produção inovadores e adequados a boas práticas internacionais, o segundo subutliza milhões de hectares de terra graças à sua produtividade muito baixa. O lado infame e predador do agro pode ser justamente aquele seu segmento mais desatualizado, carente de incentivos para a modernização e adequação às boas práticas. Enquanto que o agro de altíssima produção é composto daqueles que, nas palavras de Marina e Capobianco, "já incorporaram a dimensão da sustentabilidade". Da mesma forma que o crescimento econômico é propulsor e não competidor dos ganhos de bem estar da população geral, a produtividade no campo é facilitadora e não um estorvo para a preservação do meio ambiente. É preciso então viabilizar mecanismos de diferenciação entre esses dois mundos do agro, como metodologias de certificação, e que a sociedade e Estado forneçam seus incentivos: consumo e regulação, respectivamente. A má notícia é que justamente o Estado está falhando na regulação. Como lembram os dois no artigo, a super-representação no Congresso e no governo pende hoje para "a parcela dos produtores que insiste em ficar no passado", que comprometem "a credibilidade de todo o agronegócio e a própria segurança jurídica necessária à produção". Essa ala compete de fato contra o meio ambiente, e também contra o próprio setor, que vai perdendo mercados onde o consumo é cada vez mais consciente.
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