Esse excelente artigo de opinião do professor Samuel Pessôa descreve algo que me esforço para ao mesmo tempo tentar explicar e tentar entender: por que a esquerda mainstream latinoamericana, com exceção do Chile e Uruguai, tende a ver a social democracia como "direita"? Ele cita o caso recente de Tábata Amaral e rememora Michelle Bachelet e FHC. Eu acrescentaria ainda Bob Hawke, falecido esse ano, e Tony Blair, pra exemplificar políticos na interface da social democracia e do liberalismo, reconhecidamente à esquerda no contexto de seus países, mas que cairiam facilmente na América Latina no rótulo impreciso de "direita neoliberal". "Para se convencer de que FHC foi de esquerda pelo critério de Bobbio, basta lembrar que, em seu governo, a carga tributária cresceu, o gasto social aumentou mais rapidamente do que a economia e o valor real do salário mínimo elevou-se pouco menos do que a alta nos oito anos do governo Lula. Por que então Tabata e o governo FHC são de direita para os partidos autoclassificados como “pertencentes ao campo popular e progressista”? Não é fácil responder a essa pergunta com algum rigor. Parece-me que a diferença se encontra na aceitação ou não da economia de mercado, com propriedade privada dos meios de produção, como o mecanismo regulador da produção e distribuição dos bens e serviços. O “campo popular e progressista” é, em última instância, socialista. Penso que esse apego ao ideário socialista, mesmo que sem muita consciência, segue da particular forma pela qual eles entendem o funcionamento da economia."
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