="Quão bem vocês entendem a alma do povo"?= O Serviço Alemão da BBC de Londres manteve programas de humor no ar de 1940 a 1945. Sim, o objetivo era transmitir para os alemães programas de humor cujos personagens centrais eram os principais líderes nazistas. Os britânicos não faziam ideia de como isso seria recebido na Alemanha, mas achavam que o humor era importante para passar mensagens que rompessem o isolamento e o monopólio da informação imposto pelos nazistas. O filósofo Theodor Adorno criticou essa iniciativa, dizendo que era "moralmente errado" fazer humor com os nazistas porque "nazistas não tinham humor". Essa frase de Adorno pode ser aplicada a todos os estados autoritários. Ditaduras são desprovidas de humor, na medida em que ele pode ser corrosivo demais para manutenção do controle sobre as sociedades. Humor é, por princípio, contruído a partir da surpresa e do contraditório sobre as relações sociais. E isso pode não ser nada engraçado para os autoritários: enxergar a si mesmos pelo avesso. Podemos usar esse mesmo raciocínio para a Ditadura do Politicamente Correto. Em sua luta por coibir a piada "incorreta", muitas vezes acaba funcionando como censura, como um freio ao pensamento humano, como um fator de desumanização da sociedade, e por via de consequência, das pessoas. O humor nos revela, sempre, o imperfeito, o caos, e nos remete à nossa humanidade, foge à racionalidade e à ordem, tão caras aos tiranos. A BBC recebeu milhares de cartas de alemães, depois da guerra, agradecendo pelos programas de humor, como esta aqui (um trecho): "As transmissões de Londres me salvaram do suicídio durante os dias mais terríveis da guerra de Hitler" Talvez seja hora de nos questionarmos se em nome do "correto" não estamos construindo uma tirania limitadora da criatividade e castradora do que temos de mais precioso: nossa imperfeição. "Como qualquer outra tirania, o nazismo não tinha humor" (Robert Lucas, funcionário do Serviço Alemão da BBC)
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