O capitalismo precisa de um estado de bem-estar para sobreviver - mas o bem estar deve ser reformado para lidar com o envelhecimento e a imigração Publico aqui uma tradução minha de um artigo editorial da revista The Economist, publicado originalmente em julho de 2018: "Em ambas as mitologias da esquerda e da direita, o Estado de bem-estar é uma decorrência do socialismo. Mas a tradição intelectual à qual ele mais deve é o liberalismo. O arquiteto de sua versão britânica, William Beveridge, não queria usar o poder do Estado para o bem do Estado. O objetivo era garantir às pessoas a segurança para empreender a vida que escolherem. E reformistas liberais acreditavam que, ao proteger as pessoas contra alguns riscos da destruição criativa, Estados de bem-estar reforçariam o apoio democrático aos livres mercados. Nas décadas seguintes desde que Beveridge publicou seu relatório exemplar em 1942, Estados de bem-estar se difundiram, se tornaram maiores e mais complexos e, frequentemente, menos populares. A mudança tem muitas causas. E uma é que Estados de bem-estar têm muitas vezes divergido dos princípios liberais que os sustentaram. São esses princípios que precisam ser reafirmados. À medida que os países enriquecem tendem a gastar maiores proporções da renda nacional em serviços e benefícios públicos. Gastos com proteção social, como aposentadorias, seguro-desemprego e assistência aos mais pobres, têm crescido de uma média de 5% do PIB em países ricos em 1960 para 20% atualmente. Se incluirmos despesas com saúde e educação essa proporção aproximadamente dobra. Para alguns, a simples escala desses Estados de bem-estar é razão suficiente para reforma. Mas o que o Estado de bem-estar faz é talvez mais importante do que seu tamanho. Ele deveria pretender permitir aos indivíduos fazer suas próprias escolhas, quer seja, por exemplo, através de apoio a pais e mães a voltar ao mercado de trabalho como na Escandinávia, de orçamentos customizados para deficientes escolherem sua própria provisão como na Inglaterra, ou de “learning accounts” ao modelo de Cingapura que permita que os desempregados adquiram novos talentos. Todo mundo precisa de um mínimo para viver. Muitos daqueles que saem do mercado de trabalho, ou daqueles que têm trabalhos temporários, lutam para sobreviver. E muito frequentemente a ajuda para os mais pobres vêem de formas cruéis, ineficientes, paternalistas ou complexas. Em alguns países ricos, os desempregados encaram uma taxa marginal de imposto de acima de 80% quando entram em um emprego, em razão da perda de benefícios. Qualquer reforma do bem-estar implica em trade-offs entre o custo de um planejamento e seus efeitos na pobreza e incentivos ao trabalho. Nenhum planejamento é perfeito. Mas um bom ponto de partida é o imposto de renda negativo, que subsidia trabalhadores abaixo de um limiar de ganho, enquanto taxa aqueles acima desse limite. O imposto de renda negativo pode ser combinado com uma renda mínima universal. É uma maneira eficiente e relativamente simples de alvejar a pobreza enquanto mantém incentivos para o trabalho, contando que a taxa tributária não seja tão alta. Reformas, no entanto, também requerem assumir dois desafios que não causaram muita preocupação em Beveridge. O primeiro é o envelhecimento. A razão entre a população em idade ativa para a população aposentada nos países ricos é projetada para cair de cerca de quatro para um em 2015 para dois para um em 2050. À medida em que os países agrisalham, a despesa do bem-estar se inclina em direção aos idosos. Para mitigar a crescente desigualdade intergeracional, faria sentido cortar os benefícios mais generosos na previdência e firmemente aumentar as idades de aposentadoria. O segundo desafio é a imigração. Ao redor da Europa, o “chauvinismo do bem-estar” é crescente. Ele apoia um generoso Estado de bem-estar social para pessoas mais pobres nativas - mas não para os imigrantes. Populistas argumentam que, se migrantes de países pobres imigrarem livremente para os países ricos, eles levariam o Estado de bem-estar à falência. Outros argumentam que políticas liberais de migração dependem de restrições ao seu acesso: construa um muro ao redor do Estado de bem-estar, não do país. Votações têm sugerido que poucos Europeus naturais querem privar recém-chegados ao continente de acesso a cuidados de saúde e escolas para seus filhos. Mas muitas restrições em benefícios diretos, como algumas já tomadas nos EUA e na Dinamarca, podem ser necessárias. Assim como liberais como Beveridge perceberam, a melhor forma de assegurar apoio aos livres mercados é dar a mais pessoas uma fatia dentro deles. O Estado de bem-estar deve ser visto mais do que como uma forma de dar sapatos e sopa aos pobres e seguridade na velhice. Numa sociedade democrática, ele é também crucial para a defesa do capitalismo.”
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